Poética II

Tinha um caderno de notas. 
Todos os dias se abraçava com ele para se certificar das palavras ali derramadas.
Para dormir bem, para espantar o medo, para não ser tão só.
Se agarrava às linhas como que ao seu sopro de vida nelas confiado.

Começou a não ser suficiente,
e tinha que aumentar a dose regularmente:
Passou a ler o caderno de hora em hora,
a deitar em cima dele,
a amarrá-lo ao peito.
Até que, ainda com fome, abriu-se, e de gesto sôfrego penetrou até a última página.
Para se locupletar, para que não se esquecesse, para não fugir de si.

Confinado em amor quente e úmido, o caderno murchou, 
e morreu. 
A primeira coisa que seu espírito amarelado fez foi voar, e subir de corpo e alma, verso e prosa, ao céu das rimas livres.

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