Tendinietzche

Eu
entretenimento
Eu
programa
Eu
constrangimento
Eu
na cama
Eu
cárcere
Eu
carcerário
Eu
empresa
Eu
noticiário
Eu
sedento
Eu
sedentário
Eu
soluto
Eu
produto
Eu
solitário
Eu
mais um
Eu
bebum
Eu
consumo
Eu
resumo
Eu
não durmo
Eu
noturno
Eu
sem rumo
Eu
na estrada
Eu
mais nada
Eu
de pano
Eu
de mim tirano
Eu
contemporâneo.

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Sem título até devido acordo

Decidi focar na decoração. Dela deve ser a insuportável liberdade de sentir. E justo porque só dela, pessoas tentam, em atos desesperados, afogar-se em copos d’água, numa ação que antes deveria ser a manutenção do conteúdo. Mas a sede é efêmera, quando se olha para os detalhes em degrade. A água nas paredes perde o foco nas curvas envelhecidas. Minha face.
Em autopiedade observo as pessoas no espelho de mim. Efêmera é, mas o tempo tem estado de gradeado. Difícil de mover-se dentro dele. Me amotino. Essas colunas não deveriam ser barrocas, exploram demais a humanidade de qualquer um. Golpe ao meu próprio Estado. Abaixo à ditadura de me ser em tempo. E a tempo também, já que só se consegue fugir sento avant ou aprés. E de revolução, que o homem mais entendido de qualquer assunto, o qual entende melhor deste que qualquer outro, diria que é errado ser feita por quem se rebela. E por isso talvez desista do suicídio, em vaguidão, do conteúdo que abandono de bom grado.
Mas não como todos faço eu. E ainda me aperta o paradoxo da ocupação assassina da água no corpo que a pede. Mas se os goles fossem reiterados em cada passo que os levou até o copo, talvez o líquido fosse complacente à sua agonia e pusesse em fim rápido e esperado o conteúdo de quem lhe ingeria. Pois mata-se o recipiente, mas jamais a decoração. Viver-se-ia então, essa pessoa de fôrma salva, em pacífico descanso por fora de si. Valendo-se de lembrar que até os menos merecidos são indignos do fim lento e covarde que aproxima-se desavisado. Linguagem taquicárdica essa de fora da fôrma. Ensaio de assassinato no qual não se morre nem posso eu matar aquele diário, cotidiano, ritmado rito ratado em allegro demente. Mas se continua, se cega, se resgata. E não mais sob o cronômetro do arranjo ornamentado de mim, percebo-os todos ao meu redor, exasperando-se vez por outra e saciando a agonizante sensibilidade de se ter preenchido. Porque a ocasião enseja o ladrão, aguardo alguém que observe paredes antes do último instante em vida. Aguardo em hermetismo de desconhecimento. Ao menos alheio de vontades desvanecidas.
Desejo os cegue, os guie e me proteja até o fim dos tempos.

Escrito em sintonia abissal com Mariana Cockles.

Para Vinícius e Elisa, de um futuro mais macio

Eu seguro tua mão
pra ficar quente a água fria
pra que a dor desague em poesia
eu seguro tua mão
quando ainda for muito cedo
e quando preferires que seja segredo
eu seguro tua mão
se forem (ou não) verdade os medos teus
ou se duvidares até de Deus
eu seguro tua mão
para que te firmes em teus passos
e para distinguires os nós dos laços
eu seguro tua mão
quando não te sentires daqui
e quanto perguntares “por que eu nasci?”
eu seguro tua mão
enquanto for boêmia a madrugada
e ainda se dela não quiseres nada
eu seguro a tua mão
Mas caso um dia te descubras ambidestro
E em um segundo fores de largo a presto
solto aqui a tua canção
toma, meu filho, o meu violão.

Poética II

Tinha um caderno de notas. 
Todos os dias se abraçava com ele para se certificar das palavras ali derramadas.
Para dormir bem, para espantar o medo, para não ser tão só.
Se agarrava às linhas como que ao seu sopro de vida nelas confiado.

Começou a não ser suficiente,
e tinha que aumentar a dose regularmente:
Passou a ler o caderno de hora em hora,
a deitar em cima dele,
a amarrá-lo ao peito.
Até que, ainda com fome, abriu-se, e de gesto sôfrego penetrou até a última página.
Para se locupletar, para que não se esquecesse, para não fugir de si.

Confinado em amor quente e úmido, o caderno murchou, 
e morreu. 
A primeira coisa que seu espírito amarelado fez foi voar, e subir de corpo e alma, verso e prosa, ao céu das rimas livres.

Sem título para evitar obviedades

O corpo
por não se saber torto
provoca o espaço
Teu cheiro
na pele e mente inteiro
provoca o meu abraço
Os sinos
nomeando-se hinos
provocam os louros da fé
A marca
vangloriando-se de sua faixa
provoca o homem a ficar de pé
Minha voz
sendo arma ou meu algoz
provoca os raios de fogo de Iansã
A saia da moça
com textura de louça
provoca meus orvalhos de manhã
A lua
esposa do mar mãe da rua
provoca a monarquia do sol
O frio
soprando fino e macio
provoca brigadeiro, pipoca e lençol
A estrada
por ser somente a entrada
provoca a partida
O tempo -por ser deus-
e por refletir nos olhos teus
provoca a anarquia da vida
A morte
por ser mais nome do que norte
provoca religião
O sangue
por ter voz e cara de mangue
provoca o coração
A imaginação

provoca a realidade
Meu ouvido
por do silêncio ter se perdido
provoca a minha idade
O universo
em regime e tirania de verso
provoca o direito de se ver o dia
O peito
por direito
– ou por não se ter mais jeito-
provoca a poesia.

Larinascenterapia

faço chá
de meus pés de raízes finas
árvore de saliva e fumaça
de língua difícil de menina
seiva de quimera
entra em infusão ao simples toque
bebo com os poros

.::::;–+><)

e me curo
dos medos diários do nascer do dia:
¬¢¬££³¬OO=<////
Sigo somente a receita de minha respiração.

Repente-sussurro

Vinícius, meu filho,
Te digo franca, olhando pros teus olhos de sol:
Misturo sim poesia com cachaça
Mas nunca, nunca mesmo, acabei discutindo futebol.
Deve ser porque não haja cá junto nenhum tino
– coisa de cor de traço de raça –
Mas não tem nada não:
Te embalando em minha mão
Tenho lá dentro um violino