Mesoencefalomorfose

Da primeira vez sentiu só uma coceira. Tratou, como tudo, na unha mesmo; no pente fino quando esta voltou mais incômoda.  Depois vieram as pontadas. De analgésicos e placebos, nenhum aliviando-as, seguiu o conselho do médico de repousar. Mas, ainda em leito, ouviu os gritos. Dos ouvidos para fora retumbavam-lhe contraltos e sopranos em furor absurdo. Debateu-se desvairio e a coceira voltou agora em comichão fervilhante, até que no topo da cabeça imputou-lhe uma fenda por ela enfiou os indicadores puxou e de um só rompante escaparam em sangue e luz as borboletas dançantes deixando no chão o corpo seco prova de seu crime de liberdade.

Metronomia

Lisa,

Já tentei te mandar algumas cartas, mas
assim como em ti
nelas não sei o que colocar

Então confirmo horas
Conto odores
Me asseguro do que fores
Colaboro com a vida e de nada me valeu
se na lida que meu traço te escreveu
não houve laço para solar tuas cores

Marco ponto e vou-me embora.

Dislexia

Dado o tamanho enjoo, não bastasse a falta de utilidade, que as palavras ouvidas lhe causavam, decidiu não aprender a falar. Os pais, preocupados – já tinha passado da hora e nem com um mamã-papá aquela menina teimosa os recompensava – apelavam à toda sorte de ciência que lhe acordasse o sentido. Passados anos de luta e desespero, sem um murmúrio compreensível sequer, jogaram-na na antiga casa de praia da família; e que lá ficasse. Deserta que era, combinaria com a paisagem.
Foi só pelos 80 que se atreveu a por em prática o que levara a vida estudando: Falar ao contrário tudo que até então haviam lhe dito. Postou-se de frente ao mar, abriu os braços, esperou o compasso certo das ondas e, da primeira vibração de suas cordas, saiu o canto de amor.

Para ouvidos menos cinzentos

Era um chiado horrível. Não importava quanto tempo passasse se afinando, tudo o que soava era o ranger insuportável das cordas distorcidas. O maestro, já farto de fracassar todos os concertos por causa do barulho, mandou o violino andrógeno embora.
Na sarjeta, era o que lhe restava, continuou baixinho seu gemido, allegro ma non troppo.

De longe, reconheceram o sustenido que lhes faltava. Pularam em fanfarra até o irmão perdido, colocaram-no na primeira fila e puxaram a evocação n° 1. Finalmente, naquele ano, ganharam o carnaval.

Raridade (ou marchinha de sobrenome difícil)

De Marília talvez eu tenha uma veia
que ela não deve ter se dado conta
uma que leva do meu mar a areia
e dos dedos carrego nas pontas
(o que se segue aqui, em lá, são variações de pôr de sol):

Falo de desde quando minha fala não coube
nas tantas nuance de seu brasão distinto
e de desde então pronuncio apenas as cores
Dessas faces de verso lugar de amores
E de resto, só me calo, e pinto
Aquele teu quadro que em mim anuncia
a hora da colheita das flores
no impulso sem-hora da poesia

Mas creio que saibas, alegria,
que de tua manha peguei os braços
e numa façanha amarrei os laços
para que me faças de família
e assim me guie
atravessando tempo e espaço
com o vento que traz o abraço
que, à la folie, eu tenho de Marília.

Anatomia I (último inciso da trilogia da guerra)

PARTE I:

Luz acesa para o campo óptico de mãos dormentes
o que faço é imitar
Risco tudo
porque não gosto do que não se aproveita
estou sóbria:
isso é um problema.
Vejo que para agir as pessoas consultam antes o Grande Manual
e não sei se me alivio ou me revolto
por não saberem de cor
de cores parece que também não sabem,
tenho de sair logo daqui.
Eu fui poeta um dia
mas agora minhas mãos dormem

PARTE II:

Trago morte.

PARTE III:

Eis aqui estritamente o diagnóstico
de uma mão decepada:
Parece mão, indiscutivelmente,
parece nada
Pois o corpo a que antes servia
Acabou por ser via
da anágrafe de lâmina de espada
Fica no chão, o resto agudo
Que lhe aproveite o adubo
do sangue que espalhar
Mas
a convulsão não é o bastante
para que a difusão desse instante
possa em vida germinar
Cai em rito frio de espelho
Imagem, e cor se confunde à terra
Impossível seja o vermelho
em vão
da mão
que, só morta, berra.

Nossa voz, nosso direito, nosso amor.

Aqui só vou colocar o início do desfecho dessa história que você pode acompanhar em detalhes nesse link:
http://paupratodaobra.wordpress.com/2012/03/15/nos-preferimos-e-podemos/

Sim, isso aconteceu comigo e com ela.

Priscilla, jornalista da Folha de Pernambuco, me ligou ontem de noite, e eu contei o caso a ela em detalhes, o que resultou nisso:
http://www.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/edicaoimpressa/arquivos/2012/Marco/17_03_2012/0032.html

Matéria por Priscilla Aguiar.

Uma confusão entre o maitre do bar e restaurante Socaldinho, em Boa Viagem, e duas estudantes universitárias de 19 anos, na última quarta-feira, ocasionou nos registros de dois boletins de ocorrência (BO) na delegacia do bairro. O motivo: as estudantes, uma de Ciência Política e outra de Design Gráfico, que são namoradas, teriam sido abordadas durante o almoço e recebido a informação de que não poderiam se beijar dentro do estabelecimento.
“No meio da refeição, o maitre, que também estava responsável pela gerência no período da manhã, veio na nossa mesa e disse exatamente o seguinte: ‘vocês não podem se beijar aqui’. Perguntei o motivo e ele disse que era ‘porque aqui (bar) é um ambiente familiar e se alguma criança aparecer vai pegar mal para o restaurante’. Questionei se ele teria o mesmo tipo de atitude com um casal ‘normal’. Ele disse: ‘é, mas vocês não são um casal normal’. Diante disso, perguntei a ele qual era o tipo de ambiente de família que ele estava falando, se eu estava desrespeitando algum cliente do restaurante. Ele foi irreversível na decisão e disse que a gente não poderia se beijar ali”, contou a estudante de Ciência Política.

As jovens devem prestar depoimento na próxima segunda-feira. De acordo com o delegado Erivaldo Guerra, titular da Delegacia de Boa Viagem, o maitre também será convocado para depor. “Elas registraram o BO e têm que voltar à delegacia para prestar depoimento. A partir disso, poderemos elaborar um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por injúria ou constrangimento ilegal, já que ainda não existe o crime de injúria qualificada para situações de homofobia, como existe para o racismo”, destacou o delegado.

O proprietário do estabelecimento, Fabrício de Brito, afirmou que o maitre também registrou BO contra as jovens, alegando que a situação criada pelas estudantes teria “passado dos limites”. “A gente não tem preconceito com ninguém, mas ficou um nível ‘meio pesado’”, disse, ressaltando que situações semelhantes vêm ocorrendo em outros bares na região.

Apesar da afirmação do maitre, as universitárias alegam que, no tempo que passaram no estabelecimento, deram dois beijos, todos do tipo “selinho”. “Claro que em um restaurante tem postura que qualquer casal deve ter, seja ele gay ou hétero, e a gente sabe dessa conduta. Acho que qualquer casal hétero que estivesse em um restaurante e desse dois selinhos não iria chamar a atenção de ninguém. Às vezes, pensam que homofobia é só bater em quem é gay, mas não é só isso. Muitas vezes, até um olhar desviado machuca”, salientou a estudante de Ciência Política, acrescentando que pretende levar o caso adiante.

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É só o começo. Não vamos nos calar, não vamos parar. Vamos levar em frente, vamos protestar, vamos a juízo. Vamos beijar nossos direitos. E ninguém vai nos impedir.